(Mara Luquet)
Dívidas `sexualmente transmissíveis`. Este é, segundo Eliana Bussinger, um grande problema para as mulheres. Eliana é uma experiente consultora, com carreira construída no Banco do Brasil, onde desenvolveu alguns programas de educação financeira para mulheres. Ela é autora de dois livros na área de finanças pessoais, `As leis do dinheiro para mulheres` e, o mais recente, `Vigilantes do bolso`, ambos editados pela Campus/Elsevier. Na sua rotina de trabalho como consultora financeira, Eliana contabiliza inúmeros casos de problemas sérios com dívidas que não foram contraídas pelo endividado, mas por seu parceiro. As mulheres, segundo ela, são as maiores vítimas, representando 95% dos casos, mas também alguns homens sofrem desse problema. `As mulheres são mais influenciáveis, por isso, acabam sendo as maiores vítimas`, diz Eliana. `Elas contraem as dívidas de seus parceiros pelo mesmo motivo que contraem doenças sexualmente transmissíveis, não se protegem`, acrescenta. Uma das principais formas de transmissão de dívidas entre casais, segundo Eliana, é por meio de garantias em financiamentos de carros e outros empréstimos. Outra forma recorrente é entrar com o parceiro como sócia de algum negócio que ela não entende, não participa das decisões, não determina alavancagem, mas empresta alguma de suas economias ou apenas seu bom histórico de crédito para que ele levante recursos para o investimento. `Muitas mulheres temem que, ao negar um empréstimo ou uma fiança, passem a impressão de não confiar no parceiro`, diz Eliana. `O melhor antídoto neste caso é dizer que não confia no banco`, acrescenta. Problemas com dívidas são apontados por estudiosos como uma das principais causas de divórcio. Para muitos consultores financeiros, uma forma eficiente de lidar com o problema é criar três contas: a minha, a sua e a nossa. Na `nossa` entram as dívidas, despesas e investimentos da família. Quanto às contas individuais, cada um é responsável pela sua, sem deixar que os problemas que aparecerem contaminem a conta do outro e a da família. Pagar as dívidas um do outro não será solução, se a raiz do problema é a falta de planejamento financeiro de um dos dois. Pior, a tendência nesse caso é de o desgaste familiar aumentar a cada nova crise financeira. Quando os problemas ficam concentrados no parceiro desorganizado, ao menos não contamina a família e as chances são maiores de se resolver o problema, uma vez que ficará evidente de quem é a responsabilidade pelo desastre financeiro. Eliana concorda que é necessário manter as contas individuais. `Como você vai explicar para seu marido que precisa de dinheiro para comprar ácido retinóico?`, diz ela no `Vigilantes do bolso`. No livro, a consultora faz uma análise de casais em que um deles é gastador e outro `entesourador` (ou pão-duro, como é mais conhecido). Ela explica que o entesourador passa a viver aterrorizado diante da perspectiva da pobreza até o ponto de adoecer, ficar neurótico com o dinheiro e passa a enxergar o parceiro gastador como uma séria ameaça à sua segurança. `Nesse caso, se aparecer mais um sapato ou um computador dentro de casa, alguém corre o risco de morte!`, comenta Eliana. E não é raro que o gastador também veja suas características se acentuarem quando seu parceiro é o entesourador. `Sabendo que há alguém cuidando diligentemente das finanças do casal, é comum tornarem-se ainda menos cautelosos com relação ao dinheiro`. Assim, basta ao casamento os seus próprios desafios. Preservar sua integridade financeira é, portanto, um cuidado que se revelará precioso. Segundo Eliana, a melhor forma de prevenção das dívidas `sexualmente transmissíveis` é adotar as seguintes práticas:
1) Não permita que seu parceiro assuma o total controle na administração financeira do casal;
2) Não assine nada sem ler, entender e ver as conseqüências de uma possível inadimplência;
3) Em conta conjunta, assegure-se de que é necessário a assinatura dos dois;
4) Aprenda que o fato de amar alguém não significa que você deve confiar cegamente;
5) Se ganhar mais do que o seu parceiro, tome um cuidado redobrado;
6) Veja se a dívida beneficia só ele ou ambos;
7) Se tiver dúvidas, consulte um advogado antes de assinar qualquer promissória.
Mara Luquet é editora da revista ValorInveste e autora do livro O Assunto é Dinheiro, escrito em parceria com o jornalista Carlos Alberto Sardenberg
E-mail: mara.luquet@valor.com.br
Nenhum comentário:
Postar um comentário