(Francisco Gomes)
Falamos de Burocracia no Brasil, quase sempre, com desdém, menosprezo e até ojeriza. Julgamo-la responsável pelas disfunções, desmandos, desperdícios de toda ordem e subutilização de recursos (começando pelo tempo), uma mácula da Escola de Administração Brasileira com ênfase para a aplicada ao Setor Público. Dizemos com freqüência “essa maldita burocracia!”.
O significado mais natural para Burocracia é ORGANIZAÇÃO. Ocorre que tudo em excesso é veneno. Vejamos os ditados populares: “a diferença entre o remédio e o veneno está na dose” ou ainda “tudo demais enjoa”. Então podemos lançar mão de um divisor de águas e chegar a dois perfis de Burocracia: A primeira, comedida, centra-se nos FINS a que se propõe é a FUNCIONALISTA, a “boa”. A segunda, desmedida, centra-se nos MEIOS e gera morosidade, insatisfação, desconfiança e desconforto, é a EMPREGUISTA, a “má”. A Burocracia Brasileira é EMPREGUISTA e é tolice julgar que este é um “privilégio” do Setor Público. A diferença é que o Setor Privado não tem poder de captar como o Estado. Há desleixo e grande desperdício (construção civil e agricultura, por exemplo). Além da permeabilidade entre os dois setores através de um número absurdo de cargos e do nepotismo caracterizando uma a relação incestuosa que custa muito e vem de longa data. Sugiro a leitura do livro MAUÁ O EMPRESÁRIO DO IMPÉRIO, do Jornalista e Sociólogo paulista Jorge Caldeira. Ali podemos identificar duas Escolas de Administração: a Portuguesa, destacando Pereira de Almeida, o 1º patrão de Mauá e a Inglesa, destacando Richard Carruthers, o 2º patrão de Mauá: “...tudo o que os autores portugueses davam como certo era por eles considerado uma espécie de arqueologia. O negócios ingleses se regiam por uma filosofia completamente diversa da ensinada nos compêndios que circulavam entre os caixeiros brasileiros.”, pág. 117.A BUROCRACIA EMPREGUISTA É regida pela Visão Linear e pelo Princípio da Ostentação em combinação com:
a) Inépcia (não é inércia), no popular: "burrice";
b) Conduta dolosa;
c) Misto das duas anteriores (imaginem uma sociedade calcada em burrice e dolo).Uma sociedade alicerçada na Burocracia Empreguista forja um Estado macrocefálico, de falsas expectativas, consume grandes somas de recursos sem contrapartida, mergulha a população na instabilidade social, avilta o valor do trabalho e gera pessimismo sistêmico e comprometimento do amanhã.Esse conjunto de características está bem presente nas nações católicas do terceiro mundo.
A BUROCRACIA FUNCIONALISTAÉ regida pela Visão Sistêmica e pelo Princípio da Utilidade combinando com:
a) Trabalho;
b) Ética;
c) Funcionalidade.Uma sociedade calcada na Burocracia Funcionalista, forja o Estado de Direito, que promove a livre-iniciativa e o bem comum, desenvolve a solidariedade e assistência social com racionalidade, valoriza o planejamento familiar de longo prazo, o trabalho é um valor moral inalienável e meio para a promoção social, por conseguinte o ser humano é o centro do sistema sócio-político, dotado de liberdade individual e direito à propriedade.Essas características são bem visíveis nos países protestantes.Vejam a decepção de Rui Barbosa um dos mais célebres pensadores que o Brasil já conheceu:"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto." (Senado Federal, RJ. Obras Completas, Rui Barbosa. v. 41, t. 3, 1914, p. 86)Até quando seremos vilipendiados pela Burocracia Empreguista luso-católica?
E-mail: f.l.gomes@terra.com.br
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