Em uma conversa exclusiva com a equipe editorial da Revista Ferroviária, “Flávio Benatti”, presidente da NTC (Associação Nacional dos Transportes de Cargas e Logística), fala das possibilidades de se praticar de verdade, a intermodalidade e a regulamentação do setor rodoviário no Brasil.
“Eu costumo dizer que sou transportador rodoviário porque a condição que o País me oferece hoje é de só ter transportes rodoviário. Eu não tenho condições de infraestrutura onde eu possa desenvolver um projeto logístico contando com a ferrovia, com o marítimo, mesmo o Brasil possuindo uma costa de aproximadamente 12 mil quilômetros onde não se utiliza nem a cabotagem como se deveria utilizar”. É assim que Flávio Benatti, presidente da NTC, inicia sua explanação sobre uma maior integração entre os modais ferroviário e rodoviário no Brasil.
Na opinião de Benatti, o setor rodoviário, com a regulamentação estabelecida pela lei 11.442, apoiada pelo Registro Nacional de Transportes Rodoviários de Carga, já é possível, de alguma maneira, atingir um melhor nível de profissionalização. “Precisávamos disto, com urgência, pois a atividade padecia com fretes aviltantes praticados por aqueles que sequer são transportadores”, justifica. “A regulamentação foi um passo importante para pensarmos em um futuro onde seja possível operações logísticas integradas”.
A busca pela relação custo/benefício nos negócios parece não se aplicar na hora de se transportar cargas. “Já temos a regulamentação do setor rodoviário, o que falta, agora, são mecanismos que façam com que as leis sejam rigorosamente cumpridas e aí sim o caminho está aberto para que possamos utilizar também as ferrovias no escoamento das cargas”, destaca Benatti.
De acordo com o Plano Nacional de Logística de Transporte – que, obviamente, dependerá da conformação de investimento dos próximos governos – serão aplicados R$ 290 bilhões em transportes até 2023, sendo R$ 150 bilhões em ferrovias, o que comprova não só o potencial de crescimento, mas também a importância que o setor assume agora. A idéia governamental é a migração em futuro próximo, de uma parcela da carga rodoviária para o modal ferroviário. Para os outros setores, a projeção é de cerca de R$ 39 bilhões para os portos, R$ 16 bilhões para as hidrovias e R$ 13 bilhões nos aeroportos. As rodovias também serão contempladas e deverão receber algo em torno de R$ 69 bilhões.
Caso tais aportes sejam confirmados é possível que aos poucos o cenário melhore, porém, ainda é pouco perante o gigantismo do /Brasil. Quanto seria necessário investir, por exemplo, para se chegar ao modelo, pelo menos , similar ao existente nos Estados Unidos?”Difícil dizer”, diz Benatti, segundo quem, a falta de infraestrutura física para o transporte de contêineres, por exemplo, além da pequena malha e as inexistências de pátios intermodais dificultam o processo. Numa comparação entre o mercado americano e brasileiro, no quesito ferrovia, os EUA transportam aproximadamente 10 milhões de TEU’s (contêineres de 20 pés) por ano, contra ínfimos 250 mil TEU’s no Brasil. Vale lembra que, por aqui, mais de 90 % do volume transportado são granéis e disso, 80% divididos entre minérios de ferro, grãos, álcool, fertilizantes, cimento, dentre outros, todos produtos de baixo valor agregado, bem diferente da diversificada carga norte americana, incluindo os manufaturados.
Na visão de Benatti, para se chegar perto do modelo norte-americano, é necessário desenvolver projetos de infraestrutura em terminais multimodais. “Temos modais de transportes no País que possibilitam bons projetos logísticos, mas não temos a infraestrutura adequada para que seja possível fazer isso com confiabilidade. A medida que você tenha isso, sem dúvida que, eu como operador de transporte, farei os melhores projetos logísticos”, ressalta o presidente da NTC.
“Não vejo, em hipótese alguma, um modal como inimigo do outro. Na verdade, para que a gente seja cada vez mais competitivo, temos que investir pesadamente em infraestrutura. É preciso também uma legislação ambiental que entenda melhor essa necessidade e que possa facilitar esses processos por meio de trocas ambientais, através do que for necessário para que isso seja viabilizado. É bom que fique bem claro: o País não se viabilizará economicamente aos níveis de crescimento que precisa com a estrutura que temos hoje”, disse Benatti.
Pegando a capital paulista como exemplo, não existe uma estrutura para que os trens possam ao menos parar na cidade ou que circulem por aqui durante o dia. Tudo é feito no período noturno e a cidade serve apenas como rota de Passagem. De acordo com Benatti, “seria necessário construir diversos terminais de integração na cidade e por isso é que se fala tanto no tal Ferroanel, com estrutura no Norte, Sul, Leste e Oeste.
Segundo Benatti, tendo em vista que a grande concentração dos produtos está no /sul e ]sudoeste, em distâncias relativamente curtas, salvo uma outra, um ponto importante está também na viabilidade econômica disso, já que existam muitos custos de transferências deste produtos nos terminais. “Quando a gente fala de porto é uma coisa, mais quando a gente fala de distribuição em grandes centros é outra. E para que isso seja interessante e viável é necessário que exista um bom fluxo de demanda de carga.
Para o presidente da NTC, A FALTA DE UMA LEGISLAÇÃO DE PARECERIA PÚBLICO-PRIVADA DIFICULTA O PROCESSO. “Muita coisa está no discurso. Ninguém ou nenhuma empresa privada fará qualquer tipo de investimento se não tiver segurança ou a regra do jogo muito clara. E eu não conheço nenhum projeto de parceria público-privada, salvo o discurso, que traga essa segurança. Eu acho que tem que se pensar claramente nessa possibilidade para que consiga desenvolver projetos como o do Ferroanel, por exemplo, e a gente consiga criar estrutura que permita o crescimento do País”, cobrou. “Hoje se diz que o Brasil é a bola da vez, que a tendência toda é de crescimento. E estamos aí, bem próximos de uma Olimpíada e uma Copa do Mundo, eventos que irão atrair grandes investimentos para o País. O Brasil vem crescendo e se interiorizando e tudo isso também pode criar o ambiente necessário para que se comece a pensar seriamente a respeito. Eu entendo, sinceramente que alguns projetos como o da cabotagem, o da ferrovia, com a intermodalidade entre rodoviário e esses modais têm tudo para acontecer. E isso pode e var acontecer, sim, com a carga geral. Entretanto para isso, depende apenas de um bom estudo dos fluxos e das viabilidades estruturais”, finalizou Benatti.
(Revista Ferroviária, ano 71, Abril/Maio de 2010, páginas 46, 47, 48 e 49)
Nenhum comentário:
Postar um comentário