Embalagem plástica demora cerca de 100 anos para se decompor, segundo especialistas
As principais fabricantes de bebidas estão prontas para vender cerveja em garrafas PET, o que deixa preocupados especialistas e ambientalistas, em razão do impacto ambiental. Serão mais 9 bilhões de embalagens de plástico por ano nas ruas, córregos e aterros sanitários, uma vez que não há lei que regulamente a destinação desse resíduo ou incentivos para a reciclagem do material.`Especialistas dizem que uma embalagem PET demora cerca de 100 anos para se decompor`, conta a doutora em ecologia urbana Maria do Carmo Bezerra, ex-secretária do Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia do Distrito Federal. É possível concluir, então, que, como as garrafas PET começaram a chegar no Brasil há 20 anos, nenhuma das que foram descartadas no meio ambiente teve tempo suficiente para se decompor.Uma das saídas para aproveitar o PET já utilizado é a reciclagem do produto. Apesar disso, segundo dados do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), menos da metade (47%) dos 7 bilhões de embalagens PET que circulam a cada ano no mercado brasileiro é reciclada. O restante acaba sendo despejado na natureza como poluição.Na opinião de Cícero Bley Junior, engenheiro agrônomo e especialista em gestão de resíduos, isso acontece por vários motivos. Um deles é que o material ainda não pode ser reutilizado diretamente na embalagem de alimentos e bebidas - o seu maior mercado consumidor - por causa da contaminação. Isso não acontece com as latinhas de alumínio - que podem ser recicladas infinitamente - ou com as garrafas de vidro, que só precisam passar por uma limpeza e voltarem para o consumidor. `90% das latinhas de alumínio são recicladas`, completa.Na opinião de Alfredo Sette, presidente da Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet), o grande problema é a falta de incentivo à coleta das garrafas. `No Brasil, temos 58 empresas que utilizam matéria-prima de PET reciclado. Elas estão com 30% de ociosidade, por falta de PET coletado`, conta. Para ele, é preciso fortalecer o papel do catador. `Para isso é fundamental a atuação das prefeituras. São elas que podem organizar os catadores e fazer a coleta seletiva`, conta.Apesar disso, Cícero lembra que nem mesmo os catadores preferem o PET. `O processo de reciclagem do PET é caro e consome muita água na separação e limpeza dos materiais. Os catadores não gostam muito do PET por ser um material grande e com pouco peso, portanto rende menos lucro que a latinha`, conta.Atualmente, o que ainda impede que a cerveja seja envasada na garrafa PET é uma liminar concedida em Marília, no interior paulista, a pedido do procurador da República Jefferson Dias. A liminar exige que as empresas que desejarem fabricar cerveja em PET realizem e apresentem um estudo sobre o impacto ambiental. Apesar da liminar, duas empresas conseguiram na Justiça o direito de colocar no mercado a cerveja em PET.Na opinião de Sabetai Calderoni, diretor-presidente do Instituto Brasil Ambiente, as empresas, tanto as que produzem PET quanto as que usam a embalagem, devem se responsabilizar pela sua destinação. `Não podemos viver em um mundo onde haja a privatização dos lucros e sociabilização dos prejuízos`, afirma. Calderoni sugeriu, na Subcomissão Temporária da Regulamentação dos Marcos Regulatórios, vinculada à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, a adoção de uma Lei de Responsabilidade Ambiental para o Brasil, como forma de aperfeiçoar e integrar as normas legais que tratam do meio ambiente e da geração de resíduos sólidos no País.Para Géssica Elen, consultora do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente, antes de decidir a favor ou contra a cerveja em PET é preciso avaliar as opções. `Teoricamente, as garrafas retornáveis são melhores do que as PET.` Segundo um estudo feito pela Universidade de Campinas (Unicamp), porém, a garrafa PET pode ter um impacto ambiental menor. `Foram calculadas as emissões de carbono e o consumo de água e energia nos processos de produção, lavagem, reutilização, distribuição e destinação final dos dois tipos de garrafas. Assim, descobriu-se que, para a garrafa de vidro ser mais sustentável, precisa ser utilizada, no mínimo, 28 vezes, e distribuída em distâncias de até 400 km do centro produtor. Do contrário, o impacto ambiental do PET é menor`, afirma. Para Géssica é preciso também avaliar, além da questão financeira, o impacto ambiental e o custo de recursos como água, energia, e transporte. `E isso depende de muitas variáveis`, completa.
ASPECTOS POSITIVOS E NEGATIVOS
VANTAGENS DO PET
>Resistência e versatilidade do produto
>Facilidade de logística em relação ao vidro para as indústrias de bebidas, pois, além do baixo custo, elimina etapas de recolhimento de vasilhame e tratamento para a limpeza de garrafas
>Pode ser mais eficiente do que a garrafa reutilizável (de vidro) em regiões com escassez de água, energia e outros recursos naturais, ou quando percorre grandes distâncias no ciclo de distribuição
>O consumidor passou a evitar a troca de vasilhames e eliminou a necessidade de ter local para armazenamento em casa
DESVANTAGENS DO PET
>Maior consumo de água no processo de reciclagem e limpeza do material
>A garrafa pode ser contaminada com metais pesados de tintas, colas e rótulo
>Acúmulo de garrafas plásticas na natureza, já que é um material que não se desintegra com facilidade
>O PET reciclado não pode ser empregado na produção de novas embalagens de alimentos, pela resolução 105/99 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
>Apesar de ser 100% reciclável, é mais barato para a indústria comprar a resina de PET `virgem`, em vez da reciclada
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